Urgente:Relógio Parado: Reflexões sobre o Tempo e a Presença"

 

Quando encontrei o relógio do meu pai após sua morte, percebi a profundidade do momento em que eu o perdi — mesmo ele ainda estando aqui. 

Seu amor pelo tempo era quase obsessivo. Para ele, minutos tinham um peso inestimável; atrasos eram impensáveis e a disciplina, uma virtude. 

O relógio de pulso, um acessório que nunca deixava o seu braço esquerdo, era de metal pesado e a pulseira dizia muito sobre a passagem do tempo em sua vida.

Depois de 39 anos dedicados ao trabalho em uma transportadora em Guarulhos, ele era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, nunca faltando, 

adoecendo ou reclamando. Em casa, tudo tinha hora: hora de acordar, comer, estudar e dormir. Curiosamente, nunca havia um tempo para brincar ou conversar. 

Quando eu o chamava para jogar bola, era sempre “depois”. Quando mostrava um desenho da escola, a resposta era a mesma: “Agora não”.

Ele repetia frequentemente a frase: “Agora é sacrifício. Descanso é lá na frente”.

No último Natal antes de se aposentar, ele me chamou e, com um gesto que nunca pensei que veria, tirou o relógio do pulso. Colocou-o com delicadeza em uma caixinha azul e disse: 

“Esse relógio só voltará ao meu braço no dia em que eu parar, no dia em que eu descansar de verdade.” Naquele momento, pensei que o dia da aposentadoria realmente chegaria.

Infelizmente, dois meses após se aposentar, meu pai teve um infarto fulminante. Não houve adeus, não houve conversas, não houve tempo. 

Após o enterro, ao organizar as coisas dele, encontrei a caixinha azul. Ao abri-la, o relógio estava parado. Não quebrado, apenas congelado.

Observei que a hora marcava 19h40 — exatamente o horário em que ele chegava do trabalho, jantava em silêncio e dizia: “Estou cansado demais.” 

Esta hora representava o momento em que ele deixava de ser pai para se tornar apenas um homem exausto.

O relógio não marcou a hora de sua morte, mas sim a hora em que ele parou de viver intensamente comigo.

A doutrina espírita nos ensina que o tempo na Terra é um empréstimo, não uma posse. Viemos não para acumular horas, mas sim para viver encontros. 

O corpo trabalha, mas o espírito anseia por presença, afeto, escuta e risos. Meu pai acreditava que o descanso era uma certeza futura, mas o futuro nunca é garantido. 

Hoje, não guardo nenhum relógio. Em vez disso, guardo abraços, conversas longas e momentos passados com quem amo, porque esse é o único tempo que realmente 

importa. Cada vez que olho para o relógio e sinto a tentação de adiar algo para “depois”, lembro do meu pai e escolho agir de maneira diferente.

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